Lampião: vida, lenda e o homem por trás do Rei do Cangaço

Reginaldo Filho

28 de janeiro de 2026

lampião rei do cangaço

Atualizado em 03/02/2026

O sertão nordestino sempre foi um território onde a vida exige mais do que coragem: exige resistência. Foi nesse cenário de seca, abandono do Estado e leis frágeis que surgiu Virgulino Ferreira da Silva, conhecido nacionalmente como Lampião rei do cangaço.Mais do que um homem armado, ele se tornou um símbolo de um tempo em que a justiça caminhava devagar e, muitas vezes, não chegava. Entender Lampião é, antes de tudo, entender o sertão que o moldou.

Nascido em 7 de julho de 1898, no então distrito de Vila Bela, hoje Serra Talhada, Pernambuco, Lampião cresceu cercado por conflitos de terra, disputas familiares e violência institucional. Sua história real não começa no cangaço, mas na vida comum de um sertanejo que conheceu cedo a injustiça. Como uma árvore retorcida pela seca, sua trajetória foi sendo moldada pelas circunstâncias, até que a violência deixou de ser exceção e passou a ser caminho.

Mas afinal, por que Lampião era chamado de rei do cangaço? O título não surgiu por acaso. Ele dominava estratégias militares, conhecia a caatinga como poucos e liderava bandos que cruzavam vários estados do Nordeste, desafiando as volantes policiais por quase duas décadas. Nesse contexto, Lampião rei do cangaço tornou-se mais do que um apelido: virou um reconhecimento informal de poder, liderança e sobrevivência em um ambiente hostil.

Ainda hoje, sua figura provoca debates intensos. Lampião era do bem ou do mal? Para alguns, um bandido cruel; para outros, um produto da desigualdade social e do coronelismo. Como um espelho rachado, sua história reflete diferentes verdades dependendo de quem olha. Ao longo deste texto, vamos percorrer a história real de Lampião, entender como viveu, por que marcou tanto o Nordeste e como sua morte, em 28 de julho de 1938, selou o fim de um homem — mas não de sua lenda.

O sertão que moldou Virgulino Ferreira da Silva

Paisagem do sertão nordestino no início do século XX, cenário que moldou a vida de Virgulino Ferreira da Silva.
Paisagem do sertão nordestino no início do século XX, cenário que moldou a vida de Virgulino Ferreira da Silva.

Virgulino Ferreira da Silva veio ao mundo no coração do sertão nordestino, na região que hoje corresponde a Serra Talhada, em Pernambuco. Sua infância foi vivida em um ambiente onde a paisagem seca e o isolamento social moldavam não apenas o corpo, mas também o espírito. Desde cedo, aprendeu que o sertão não perdoa distrações: cada erro custava caro. Foi nesse chão áspero que começou a se formar o homem que, mais tarde, seria conhecido como Lampião rei do cangaço.

No final do século XIX e início do século XX, a vida do sertanejo era marcada pela dureza extrema do cotidiano. Crianças cresciam trabalhando, ajudando a família na lida com a terra ou com o gado. O acesso à educação era mínimo, e a maioria aprendia mais com a experiência do que com livros. A história real de Lampião se confunde com essa realidade coletiva, onde sobreviver era mais urgente do que sonhar.

A seca agravava ainda mais esse cenário. Quando a chuva não vinha, o sertão se tornava um território de escassez absoluta. A pobreza se espalhava e a ausência do Estado ficava evidente: não havia políticas públicas eficazes, proteção social ou justiça acessível. Nesse vácuo, quem tinha poder eram os coronéis, e quem não tinha, aprendia a se defender como podia. Esse contexto ajuda a entender por que o cangaço surgiu e por que Lampião rei do cangaço encontrou seguidores e apoio em muitas comunidades.

Nesse ambiente hostil, o sertão funcionava como uma escola sem mestres e sem misericórdia. “O sertão era uma fornalha que forjava homens de ferro”, endurecendo emoções e ensinando que a fraqueza não tinha espaço. Virgulino cresceu absorvendo essa lógica, onde coragem, astúcia e resistência eram virtudes essenciais. É nesse ponto que começa a nascer o debate que atravessa sua trajetória: Lampião era do bem ou do mal? Antes de ser mito ou bandido, ele foi fruto direto de um sertão que moldava homens à força.

Da injustiça ao cangaço: o caminho sem volta

A trajetória de Virgulino Ferreira da Silva começou a mudar quando conflitos familiares passaram a atrair a atenção das forças policiais e de grupos armados ligados ao poder local. Disputas por terra, acusações e rivalidades comuns no sertão se transformaram em perseguições constantes. A família Ferreira passou a ser tratada como inimiga, mesmo antes de qualquer crime formal, evidenciando um sistema em que a lei servia mais aos influentes do que ao homem comum. Nesse ambiente de tensão permanente, começava a se desenhar o caminho que levaria ao surgimento de Lampião rei do cangaço.

O ponto de ruptura ocorreu com a morte de José Ferreira, pai de Virgulino, assassinado em 1921 durante uma ação policial. Esse episódio marcou profundamente sua vida e redefiniu suas escolhas. A partir dali, a ideia de justiça institucional perdeu qualquer significado. A história real de Lampião passa, inevitavelmente, por esse momento: não foi apenas a perda do pai, mas a percepção de que o Estado, em vez de proteger, era o principal agente da violência sofrida por sua família.

Sem confiar nas autoridades e vivendo sob constante ameaça, o ingresso no cangaço deixou de ser apenas uma opção e passou a ser uma forma de sobrevivência. O cangaço oferecia abrigo, armas e uma estrutura capaz de enfrentar as volantes policiais. Para muitos sertanejos, inclusive Virgulino, entrar para esse mundo significava inverter a lógica da perseguição: de caçado, ele se tornava combatente. É nesse contexto que Lampião rei do cangaço começa a se consolidar como líder, estrategista e símbolo de resistência armada.

Assim, o cangaço surge como resposta direta à violência institucional. Quando o Estado falha em garantir justiça, segurança e direitos básicos, cria-se um vazio perigoso. “Quando a lei falha, o homem cria sua própria regra” — e foi exatamente isso que aconteceu. Esse momento da trajetória levanta uma das questões centrais sobre sua figura: Lampião era do bem ou do mal? Para alguns, um criminoso; para outros, alguém empurrado para fora da lei por um sistema que nunca lhe ofereceu escolha real.

O nascimento de Lampião, o Rei do Cangaço

Lampião rei do cangaço
Da esquerda para direita: 1- Vila Nova 2- ? 3- Benjamin 4- Luis Pedro 5- Amoroso 6- Lampião 7- Cacheado 8- Maria Bonita 9- ? 10- Quinta-feira obs: foto tirada por cangaceiro Juriti

O nome Lampião surgiu ainda nos primeiros anos de sua vida no cangaço e está ligado à forma intensa e veloz com que Virgulino atirava. Diziam que, durante os confrontos noturnos, o clarão de seu rifle iluminava a escuridão como um lampião aceso, confundindo inimigos e impondo respeito. O apelido rapidamente se espalhou pelo sertão, substituindo o nome de batismo e marcando o nascimento simbólico de Lampião rei do cangaço, uma figura que começava a ultrapassar os limites do homem comum.

Com o tempo, Virgulino deixou de ser apenas mais um cangaceiro para se tornar líder. Sua ascensão dentro do cangaço ocorreu por mérito próprio, baseada em coragem, disciplina e capacidade de organização. Ele impôs regras, punições e uma hierarquia clara, transformando bandos dispersos em grupos mais eficientes. A história real de Lampião mostra que seu poder não vinha apenas da arma, mas da habilidade de comandar homens em um território hostil, onde qualquer erro podia ser fatal.

A estratégia e a inteligência tática foram marcas centrais de sua liderança. Lampião conhecia a caatinga como quem conhece o próprio corpo, usando trilhas escondidas, emboscadas e deslocamentos rápidos para escapar das volantes policiais. Sabia quando atacar e quando recuar, evitando confrontos desnecessários. Essa capacidade de adaptação ajudou a consolidar Lampião rei do cangaço como um inimigo temido pelas autoridades e admirado por parte da população sertaneja.

Ao longo de sua trajetória, Lampião manteve relações com diversos cangaceiros famosos, como Corisco, Sabino Gomes e Zé Baiano, além de líderes que o antecederam, como Sinhô Pereira, de quem herdou experiência e influência. Essas alianças fortaleceram sua posição e ampliaram sua fama pelo Nordeste. No entanto, sua liderança também gerava conflitos internos, reforçando o debate que sempre acompanhou sua figura: Lampião era do bem ou do mal? Herói para uns, tirano para outros, ele se consolidava como o personagem central do cangaço brasileiro.

Vida no cangaço: entre o medo e a admiração

Cangaceiros do bando de Lampião
Cangaceiros do bando de Lampião

A vida no cangaço era marcada por uma rotina dura e instável, onde cada dia podia ser o último. Os bandos viviam em constante deslocamento pela caatinga, caminhando longas distâncias para evitar cercos policiais. Dormiam ao relento, enfrentavam o calor extremo durante o dia e o frio das madrugadas. Nesse cotidiano de risco permanente, Lampião rei do cangaço mantinha seus homens sempre atentos, transformando a sobrevivência em uma disciplina quase militar.

Dentro dos bandos, existia um código de conduta rígido, imposto pelo próprio Lampião. Desobediência, traição ou atos que colocassem o grupo em risco eram punidos com severidade, que podia variar de castigos físicos até a morte. Esse sistema interno mantinha a ordem e reforçava a autoridade do líder. A história real de Lampião revela que sua liderança se sustentava tanto pelo respeito quanto pelo medo, criando um equilíbrio delicado entre controle e lealdade.

A sobrevivência do cangaço também dependia do apoio dos coiteiros, moradores do sertão que forneciam comida, abrigo e informações. Muitas comunidades mantinham silêncio diante da presença dos cangaceiros, seja por medo de represálias, seja por identificação com sua luta contra abusos policiais e coronelistas. Esse apoio popular, ainda que discreto, ajudou a prolongar a atuação de Lampião rei do cangaço por quase vinte anos, desafiando o poder oficial.

Essa relação ambígua explica por que Lampião foi visto de formas tão diferentes. Para alguns, era um vilão cruel, responsável por saques, violência e mortes. Para outros, um justiceiro, que enfrentava coronéis, punia abusos e ajudava sertanejos pobres em determinadas situações. Como uma moeda de duas faces, sua imagem oscilava entre o temor e a admiração, alimentando a pergunta que atravessa sua história: Lampião era do bem ou do mal?

Maria Bonita e o lado humano do cangaceiro

Maria Bonita, cujo nome de batismo era Maria Gomes de Oliveira, nasceu em 8 de março de 1911, na Bahia, e entrou para a história como a companheira mais famosa de Lampião. Ao conhecer Virgulino, ela rompeu com os padrões impostos às mulheres sertanejas da época, abandonando uma vida marcada por limitações para enfrentar a dureza da caatinga. Sua presença ao lado de Lampião rei do cangaço revelou um aspecto menos conhecido da trajetória do cangaceiro: o homem capaz de amar em meio à violência.

Lampião e Maria Bonita em retrato histórico no sertão nordestino.

O relacionamento entre Lampião e Maria Bonita floresceu em um cenário improvável. Cercados por perseguições, emboscadas e conflitos armados, os dois construíram uma relação baseada em parceria e resistência. O amor, nesse contexto, não era refúgio, mas força. A história real de Lampião mostra que Maria Bonita não foi apenas companheira afetiva, mas apoio emocional e símbolo de estabilidade em uma vida marcada pela guerra constante.

A entrada de Maria Bonita no bando abriu caminho para a presença feminina no cangaço, algo raro até então. Outras mulheres passaram a integrar os grupos, compartilhando riscos, deslocamentos e dificuldades. Elas não apenas acompanhavam seus parceiros, mas também cuidavam da logística, dos ferimentos e, em alguns casos, participavam diretamente dos combates. Esse aspecto humaniza a narrativa de Lampião rei do cangaço, mostrando que o cangaço não era composto apenas por armas, mas também por vínculos e afetos.

Assim, Maria Bonita representa o contraste mais forte dentro do cangaço: o amor surgindo onde tudo parecia hostil. “Mesmo no espinho da caatinga, o amor encontrou flor”, desafiando a lógica de que só havia brutalidade naquele mundo. Sua história reforça o dilema que acompanha Lampião até hoje: Lampião era do bem ou do mal? Ao lado de Maria Bonita, ele surge menos como mito armado e mais como homem moldado por escolhas extremas.

Lampião e o poder: acordos, coronéis e contradições

lampião e o poder
Imagem que remete a Lampião em momento de liderança, símbolo das relações de poder no sertão nordestino.

No sertão do início do século XX, o poder raramente vinha do Estado; ele brotava das alianças locais. Lampião rei do cangaço compreendeu cedo essa lógica e passou a se relacionar com coronéis e políticos regionais, estabelecendo acordos tácitos de proteção, passagem e fornecimento. Em troca, oferecia segurança contra rivais, intimidava adversários e mantinha uma ordem conveniente para quem mandava. Essa relação ambígua mostra que o cangaço não existia à margem do poder, mas dialogava com ele.

O jogo de interesses no sertão era complexo e fluido. Coronéis precisavam de força armada para sustentar sua influência; Lampião precisava de abrigo, informações e recursos. Assim, formava-se uma teia de conveniências em que a moral cedia espaço à sobrevivência política. A história real de Lampião revela que, longe de ser um rebelde isolado, ele foi também um negociador pragmático, capaz de ler o ambiente e ajustar suas alianças conforme o vento mudava.

Nesse tabuleiro instável, Lampião navegava entre o crime e a proteção. Para alguns sertanejos, sua presença significava defesa contra abusos policiais e violência de jagunços; para outros, representava medo e coerção. Ao impor regras e punir excessos — às vezes com brutalidade —, criava uma espécie de ordem paralela. É nesse equilíbrio tenso que Lampião rei do cangaço consolidou sua autoridade, sustentada tanto por acordos quanto pela força.

A leitura desse período dialoga com temas atuais, como poder paralelo e abandono social. Onde o Estado falha, surgem líderes informais que ocupam o vazio com regras próprias. “Quando a lei não chega, outra se instala” — e foi assim no sertão de Lampião. Essa contradição ajuda a explicar por que o debate persiste: Lampião era do bem ou do mal? Talvez tenha sido, sobretudo, o retrato de um sistema que trocou direitos por arranjos e deixou comunidades à própria sorte.

A perseguição e a queda do Rei do Cangaço

A partir da década de 1930, a perseguição policial aos cangaceiros tornou-se mais intensa e coordenada. O governo passou a investir em volantes mais bem armadas, com melhor conhecimento do território e estratégias específicas para enfrentar os bandos. A pressão aumentou especialmente após 1935, quando o cangaço passou a ser visto como uma ameaça direta à ordem nacional. Nesse cenário de cerco progressivo, a sobrevivência de Lampião rei do cangaço tornava-se cada vez mais difícil, apesar de sua experiência e habilidade tática.

O desfecho ocorreu no sítio Angico, localizado no município de Poço Redondo, Sergipe, às margens do rio São Francisco. Na madrugada de 28 de julho de 1938, as forças policiais surpreenderam o bando em um ataque rápido e decisivo. O local, até então considerado seguro, revelou-se uma armadilha. A história real de Lampião encontra ali seu ponto final, mostrando que nem mesmo o mais astuto conhecedor da caatinga estava imune ao erro ou à traição.

Imagem remete a perseguição final de morte de Lampião
Imagem remete a perseguição final e morte de Lampião

Durante o confronto, Lampião, Maria Bonita e outros integrantes do grupo foram mortos, totalizando onze cangaceiros abatidos. A morte de Maria Bonita marcou simbolicamente o fim do cangaço como era conhecido, encerrando também a presença feminina organizada nos bandos. Com a queda de Lampião rei do cangaço, desmoronava não apenas um líder, mas toda uma estrutura que desafiou o Estado por quase vinte anos.

O episódio ganhou contornos ainda mais brutais com a decapitação e exposição das cabeças dos mortos, levadas como prova da vitória policial e exibidas publicamente. O ato tinha forte simbolismo político e psicológico: demonstrar que o poder do cangaço havia sido definitivamente esmagado. No entanto, essa cena também eternizou Lampião no imaginário popular, levantando novamente a questão que atravessa sua trajetória: Lampião era do bem ou do mal? Ao tentar silenciar o mito, o Estado acabou reforçando sua presença na memória histórica do Brasil.

O mito que sobreviveu ao homem

Com a morte de Virgulino Ferreira da Silva, em 28 de julho de 1938, o homem se foi, mas a narrativa apenas começou a ganhar força. A figura de Lampião rei do cangaço ultrapassou os limites da história factual e passou a habitar o imaginário coletivo do Brasil. Como acontece com personagens que marcam profundamente seu tempo, sua imagem foi sendo recriada, reinterpretada e ampliada, transformando-se em mito — uma mistura de fatos, memórias e símbolos.

Na literatura, Lampião aparece tanto em estudos históricos quanto em romances que exploram o drama humano do cangaço. No cinema, tornou-se personagem recorrente, retratado ora como bandido sanguinário, ora como herói trágico do sertão. Na música, especialmente no forró e nas canções nordestinas, seu nome ecoa como sinônimo de bravura e desafio à autoridade. A história real de Lampião serviu como matéria-prima para múltiplas leituras, cada uma refletindo a visão de sua época.

Lampião é comumente retratado em história de Cordel
Lampião é comumente retratado em história de Cordel

A literatura de cordel, o xaxado e outras manifestações da cultura popular foram decisivas na consolidação desse mito. Nos folhetos de cordel, Lampião surge como personagem épico, quase lendário, enfrentando injustiças e autoridades. O xaxado, dança associada aos cangaceiros, transformou passos de guerra em expressão cultural. Assim, Lampião rei do cangaço deixou de ser apenas um personagem histórico para se tornar elemento vivo da identidade nordestina.

Essa construção do mito aconteceu ao longo do tempo, alimentada pelo contraste entre violência e resistência, medo e admiração. “O homem morreu, mas a história continuou armada”, carregada de significados, disputas e interpretações. Cada geração revisita sua trajetória e refaz a pergunta central: Lampião era do bem ou do mal? Talvez o mito exista justamente para mostrar que algumas histórias não cabem em respostas simples.

Lampião: bandido, herói ou reflexo do seu tempo?

Ao longo das décadas, diferentes interpretações históricas tentaram definir quem foi Lampião. Para parte da historiografia, ele aparece como bandido violento, responsável por saques, mortes e terror no sertão. Para outros estudiosos, surge como produto direto de um sistema injusto, marcado pelo coronelismo, pela violência policial e pela ausência do Estado. Entre esses extremos, Lampião rei do cangaço ocupa um espaço incômodo, onde a história não oferece respostas simples nem julgamentos fáceis.

Lampião: Herói ou bandido?
Lampião: Herói ou bandido?

Essas leituras costumam compará-lo a outros personagens históricos que também desafiaram a ordem estabelecida. Assim como Robin Hood, na tradição inglesa, ou Pancho Villa, na Revolução Mexicana, Lampião foi visto por alguns como alguém que enfrentava os poderosos em nome dos oprimidos. No entanto, diferentemente dos heróis clássicos, a história real de Lampião carrega contradições profundas, pois seus atos de resistência muitas vezes vinham acompanhados de extrema violência.

Essa ambiguidade conduz a uma reflexão crítica sobre violência, desigualdade e justiça. O cangaço não nasceu do nada, mas de um sertão abandonado, onde a lei chegava tarde e protegia poucos. Nesse contexto, a violência tornou-se linguagem comum, tanto do Estado quanto de quem o enfrentava. Perguntar se Lampião era do bem ou do mal é, também, questionar um sistema que empurrou milhares de sertanejos para escolhas extremas.

O cangaço como espelho social revela um Brasil profundo, desigual e esquecido por décadas. Lampião não foi apenas indivíduo, mas sintoma de um tempo em que sobreviver exigia força e astúcia. Lampião rei do cangaço permanece como figura histórica justamente porque expõe feridas que ainda não cicatrizaram completamente. Mais do que herói ou bandido, ele foi o reflexo armado de um sertão que aprendeu a viver sem justiça — e, por isso mesmo, jamais o esqueceu.

O legado de Lampião para o Nordeste e o Brasil

O impacto deixado por Lampião ultrapassa os limites de sua trajetória pessoal e alcança a história cultural do Nordeste e do Brasil. Sua atuação no cangaço ajudou a revelar um país profundo, distante dos grandes centros, onde a lei oficial pouco chegava. A figura de Lampião rei do cangaço tornou-se referência histórica para compreender o sertão, suas dores e suas formas próprias de resistência, influenciando pesquisas, obras artísticas e debates sociais até os dias atuais.

Museu do Cangaço - Serra Talhada -PE
Museu do Cangaço – Serra Talhada -PE

A influência cultural e histórica de Lampião pode ser vista na literatura, no cinema, na música popular e na tradição oral. Cordéis, filmes e canções continuam reinterpretando sua história, mantendo viva a memória do cangaço. A história real de Lampião funciona como uma chave de leitura para entender conflitos sociais do início do século XX, ajudando a explicar a relação entre poder, violência e abandono institucional no interior nordestino.

Ao colocar o sertão como protagonista da narrativa nacional, a trajetória de Lampião rompeu com a visão de um Brasil contado apenas a partir do litoral e das capitais. O cangaço revelou um país esquecido, mas essencial para compreender a formação social brasileira. Nesse sentido, Lampião rei do cangaço não é apenas personagem regional, mas parte de uma história nacional que precisa ser contada a partir de múltiplos olhares.

O interesse contínuo por Lampião se explica porque sua história dialoga diretamente com a identidade nordestina. Ele representa a mistura de resistência, dureza e orgulho que marca o sertanejo. Ao mesmo tempo, levanta questões ainda atuais sobre justiça social e desigualdade. Por isso, mais do que responder se Lampião era do bem ou do mal, seu legado convida à reflexão sobre um Nordeste que transformou dor em cultura e memória em identidade.

Quando a história não cabe em rótulos

A trajetória de Virgulino Ferreira da Silva percorre um arco complexo, que vai do sertanejo comum ao líder mais conhecido do cangaço. Ao longo de sua vida, enfrentou perseguições, construiu alianças, impôs liderança e deixou marcas profundas no Nordeste. Lampião rei do cangaço não foi apenas um homem armado, mas um personagem moldado por um tempo de seca, violência e abandono institucional, cuja morte em 28 de julho de 1938 encerrou uma era sem apagar sua presença histórica.

Compreender Lampião exige olhar além do rótulo fácil de herói ou bandido. A importância do contexto histórico é central: um sertão sem Estado, dominado pelo coronelismo e por uma justiça desigual, criou o ambiente propício para o surgimento do cangaço. A história real de Lampião mostra que suas escolhas não nasceram no vazio, mas em um cenário onde a lei falhava repetidamente em proteger os mais frágeis.

Essa reflexão conduz a uma pergunta inevitável: o que cria um “fora da lei”? É apenas a decisão individual ou a soma de injustiças acumuladas? No caso de Lampião rei do cangaço, o fora da lei surge como resposta extrema a um sistema que empurrava homens para a margem. Questionar sua trajetória é, também, questionar as estruturas sociais que transformam violência em linguagem cotidiana.

No fim, Lampião permanece como um espelho incômodo da história brasileira. “Quando a justiça falta, o rótulo nasce antes da compreensão”. Talvez por isso sua história ainda provoque debates: porque ela nos lembra que alguns personagens não cabem em julgamentos simples — cabem, sim, na memória de um país que ainda tenta entender o próprio passado.

Fontes e Referências

  • CHANDLER, Billy Jaynes. Lampião: O Rei dos Cangaceiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
    Uma das obras mais completas e respeitadas sobre a vida de Lampião, baseada em pesquisa histórica profunda.
  • MELLO, Frederico Pernambucano de. Guerreiros do Sol: Violência e Banditismo no Nordeste do Brasil. São Paulo: A Girafa, 2004.
    Referência fundamental para compreender o cangaço dentro do contexto social, político e cultural do sertão.
  • QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. O Messianismo no Brasil e no Mundo. São Paulo: Dominus, 1965.
    Ajuda a contextualizar o cangaço como fenômeno social ligado à exclusão e ao abandono estatal.
  • MACEDO, Antônio Amaury Corrêa de Araújo. Lampião: Sua História. Salvador: EDUFBA, 1999.
    Pesquisa detalhada com base em documentos, depoimentos e relatos históricos.
  • Museu do Cangaço – Serra Talhada (PE)
    Acervo histórico, exposições permanentes e pesquisas sobre Lampião, Maria Bonita e o cangaço nordestino.
    Site oficial: https://museudocangaco.com.br

As informações apresentadas neste artigo foram construídas a partir de pesquisas históricas, obras acadêmicas e acervos culturais reconhecidos, buscando oferecer uma visão contextualizada e crítica sobre Lampião e o cangaço.

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